Por que não lembramos mais números de telefone nem caminhos?
Lembrar deixou de ser uma necessidade diária. Mas o que estamos fazendo com a energia mental que a tecnologia liberou? Uma reflexão sobre memória, GPS e inteligência artificial.
REFLEXÕES


Esses dias me peguei pensando num ritual curioso que praticávamos na adolescência: ao chegar ao clube, antes mesmo de encontrar os amigos, eu e minhas irmãs dávamos uma volta completa pelo estacionamento. Não estávamos procurando pessoas. Estávamos procurando carros.
Sabíamos de cor as placas de todo mundo e antes de entrar, já sabíamos quem iríamos encontrar. E era muito simples, isso nunca foi uma habilidade especial para ninguém: era simplesmente a vida normal nos anos 80, 90.


Também não sei o telefone de quase ninguém.
Por acaso, você sabe?


Não porque fiquei menos inteligente do que era nos anos 90, mas porque parte do trabalho foi transferida para uma máquina, e talvez seja isso que esteja acontecendo com várias áreas da nossa vida.
Os telefones estão armazenados no celular. Os caminhos estão no GPS. Os aniversários estão na agenda. As senhas ficam salvas no navegador. As fotos guardam as lembranças. Os textos começam a ser organizados por inteligências artificiais.
Lista Telefônica
Quando eu me perdia, precisava entender onde estava. Parava e perguntava para alguém na rua e a pessoa explicava algo como "vira à esquerda, segue duas quadras, depois entra à direita" e eu tentava guardar aquelas informações enquanto dirigia. Sem perceber, eu estava construindo um mapa mental da cidade. Aos poucos, San Diego deixava de ser um conjunto de ruas desconhecidas e passava a existir dentro da minha cabeça.
Hoje a experiência é completamente diferente. O GPS me manda virar à direita em 200 metros, eu viro. Ele manda entrar na próxima saída, eu entro. Chego ao destino sem erro, sem estresse e, curiosamente, sem a menor ideia de como cheguei ali. Se alguém me pedir para fazer o mesmo trajeto uma hora depois sem o GPS, tenho grandes chances de fracassar miseravelmente.
A gente usava agenda mas os telefones também eram decorados naturalmente. Bastava ouvir três ou quatro vezes e pronto, ficavam armazenados em algum lugar da memória sem qualquer esforço consciente.
Hoje eu não sei o número da minha filha.
Outro dia fiquei pensando na época em que morei em San Diego, CA. Como é ue eu conseguia me virar naquela cidade sem um GPS?
Quando eu precisava ir a algum lugar dirigindo, eu sentava com um mapa de papel aberto na mesa, nervosa, estudava o caminho, decorava as ruas principais e saía rezando para dar certo. E me perdia. Bastante. Muito mais do que gosto de admitir.






Pela primeira vez na história, lembrar deixou de ser uma necessidade diária. Não sei se isso é bom ou ruim. O que me intriga é outra coisa:
O que estamos fazendo com o espaço mental que essa mudança nos trouxe?
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